Sérgio Sacani X lógico Victorelli
Sacani contra um lógico que o chamou de cientificista.
Recentemente, presenciamos um embate no quadro 1x30 (Canal RedCast) entre duas figuras de peso: Sérgio Sacani, indiscutivelmente um dos divulgadores científicos mais influentes do país, e Vitor Victorelli, um lógico brasileiro por quem nutro genuíno respeito. O que deveria ser um duelo de excelência intelectual, contudo, revelou-se um campo minado de imprecisões terminológicas e falácias que transbordaram para as redes sociais.
Acompanhei não apenas o trecho do debate, mas a repercussão nos stories do Instagram de Victorelli. O que encontrei me compeliu a escrever esta análise. Não se trata de uma crítica pessoal, mas de uma necessidade de higiene conceitual. Em poucos minutos de interação, definições diferentes de "ciência" foram confundidas, conceitos de probabilidade foram tratados como certeza e a distinção fundamental entre o método científico e o método axiomático foi ignorada.
O Que Passou Despercebido
Para o espectador médio, o debate pode ter parecido técnico. Para um olhar versado no rigor apodíctico, foi uma sucessão de erros categoriais graves. Abaixo, antecipo as conclusões desta análise forense das falas de ambos:
- A Contradição de Victorelli: O lógico incorreu em uma falácia de equivocação. Em momentos distintos (no debate e nos stories), ele alternou entre duas definições excludentes: ora afirmando que a Matemática é uma via de conhecimento distinta da Ciência, ora subentendendo que a Matemática é Ciência. Essa flutuação semântica tornou o argumento logicamente inconsistente.
- O Erro Crasso de Sacani (A Falácia dos Grandes Números): O aspecto mais entristecedor foi ver um divulgador do calibre de Sacani aceitar passivamente a tese de que a "Lei dos Grandes Números" constitui uma prova matemática da existência de vida alienígena.
- Estatística lida com indução (probabilidade), não com dedução (prova ontológica). Aceitar que "números grandes provam existência biológica" é um erro primário de fundamentos.
- O Mito da "Prova Científica": Sacani também falhou ao não corrigir (ou ao corroborar) a ideia de que algo pode ser "cientificamente provado". A ciência opera por corroboração e evidência, nunca por prova definitiva (apanágio da Lógica e da Matemática).
1. Definição Rigorosa dos Termos:
1.1 Ciência
Existem 2 definições geralmente consideradas de ciência:
1.1.1 A definição grega relacionada a conhecimento seguro, demonstrável e necessário.
"Julgamos possuir conhecimento científico [episteme] de uma coisa, de modo absoluto [...] quando julgamos conhecer a causa pela qual a coisa é, saber que ela é a causa daquela coisa e que não é possível que a coisa seja diferente do que é." Aristóteles, Segundos Analíticos (71b 9-12)
1.1.2 A concepção moderna, que usa um grau de critério mais rigoroso para conceder o "status científico", conferindo assim uma distinção mais clara e útil para o uso do termo dada a complexidade da terminologia moderna. Aqui a definição está relacionada ao método científico.
"O critério para estabelecer o status científico de uma teoria é a sua falseabilidade ou testabilidade. [...] Karl Popper
2. Problema:
2.1 Identificar se matemática deve ou não ser considerada uma ciência.
3. Proposições:
3.1. Victorelli deixou subentendido no debate que considera matemática uma ciência (e nos comentários desta publicação ele afirmou isto explicitamente).
3.2. Victorelli afirmou, nos stories que matemática é uma via de conhecimento diversa em relação à ciência. As palavras dele foram algo próximo de: “cientificismo é uma posição epistemológica relacionada a uma certa hipertrofia das ciência em relação a outras vias do conhecimento(…) como a matemática”.
3.3. Sacani confirmou que um debatedor anterior teria provado matematicamente (usando "grandes números") que deve haver vida inteligente não humana estranha à Terra.
3.4. Sacani também confirmou que o mesmo debatedor anterior não teria provado cientificamente a vida inteligente não humana estranha à Terra (deixando subentendido que exista prova científica).
4. Filtro Apodíctico:
4.1. Análise das definições:
4.1.1 O termo passou por uma redefinição por utilidade. De modo análogo, a própria definição de número PI (3,14...) passou por uma redefinição. Na época de Euclides, seria suficiente definir como 'razão entre o perímetro e o diâmetro de um círculo', porque não existiam outros sistemas axiomáticos para geometrias diferentes da Euclidiana. Atualmente, dada a complexidade atual, uma definição mais completa e cuidadosa se faz necessária para evitar interpretações incorretas e distinguir de termos com utilidade distinta. A saber, uma definição mais útil na atualidade, dada por @hindemburg , seria "razão entre o perímetro e o diâmetro de um círculo construído sobre uma superfície plana, contínua, ortonormal".
4.1.2 A definição Aristotélica de ciência era suficientemente útil para um período em que a formalização lógica estava começando a ser construída e a maior parte das vias de conhecimentos estavam engatinhando no que se refere à sistematização. Atualmente, a distinção requer maior detalhamento e rigor. Isto não significa que necessariamente as outras vias de conhecimento, como filosofia, lógica, matemática não tenham valor na busca por interpretações bastante representativas da realidade, mas apenas distinguir melhor os modos e rigor com que essa busca acontece. Inclusive, em muitos momentos do processo de descoberta científica, a lógica exerce um certo poder moderador sobre a ciência. Tanto a lógica quanto a matemática tem um poder documental, descritivo e interpretativo que são imprescindíveis para a ciência - apenas não são ciência, porque são ontologicamente e epistemologicamente distintas.
4.2. Análise das afirmações [3.1] e [3.2]:
Num momento, Victorelli afirmou que matemática é ciência e em outra afirmou que matemática é uma outra via (em relação à ciência). São afirmações obviamente contraditórias.
4.2.1. Na mesma sequência de stories o Victorelli afirma também que "no contexto do cientificismo, apenas as ciências naturais são consideradas ciência", mas, nas afirmações 3.2 ele não estava falando como um cientificista (estava falando como um analista externo ao cientificismo). Na prática, Victorelli saltou do uso de uma definição pra outra, aumentando a confusão entre as definições, ao invés de declarar a definição que usaria e deixar o debate, no mínimo, menos confuso. No debate, eu até entendo a dificuldade para fixar o termo, porque tinha pouquíssimo tempo, mas a maior confusão aconteceu no instagram, após o debate. No fim, foi uma falácia de equivocação.
4.3. Análise da afirmação [3.3]:
Acreditar que o cara que mencionou a teoria dos grandes números (embora não a tenha citado nominalmente) provou matematicamente que há vida inteligente não humana estranha à Terra demonstra um desconhecimento absurdo sobre os fundamentos da estatística (primeiro porque probabilidade é probabilidade - indutiva -, não é prova - ontologicamente dedutiva).
4.3.1. Os grandes números, por si só, nem chegam perto de conseguir indicar uma probabilidade válida para a existência de vida inteligente não humana estranha à Terra. Foi uma falácia non sequitur usada pelo “debatedor” anterior, repetida pelo Victorelli e aceita pelo Sacani.
4.4. Análise da afirmação [3.4]:
Não é possível que algo seja provado cientificamente, porque não existe prova em ciência. O que existe na ciência são evidências e corroborações.
4.4.1 O que aconteceria no caso de se observar empiricamente vidas inteligentes não humanas originadas fora da Terra se uma prova lógica (refutação) da falsificação da teoria de que não há vida (com as características citadas) estranha à Terra. Como explicado no ponto [4.1.2], a lógica atuando como moderadora da ciência. -e, na lógica, existe prova.
4.3.2 No que se refere à relação das provas matemáticas com a ciência, o que pode haver é a prova matemática de um teorema que representa (em linguagem matemática) uma certa teoria científica - e, em matemática, assim como em lógica, existe prova.
4.4. Me parece entristecedor que um dos “divulgadores da ciência” mais populares e influentes do país tenha ouvido erros crassos e elementares como estes e tenha ficado sem resposta. Ele não conseguiu identificar e apontar as distinções entre as definições de ciência e demonstrou acreditar que os "grandes números" prove algo no mundo real e é suficiente para estabelecer alguma probabilidade útil para a finalidade que o debatedor anterior usou.
Conclusão: O Silêncio da Autoridade e o Custo do Impreciso
O saldo final deste debate transcende a performance individual dos participantes; ele serve como um alerta severo sobre a fragilidade do rigor em palcos de grande alcance.
É desconcertante — e até certo ponto entristecedor — observar uma das figuras mais influentes da divulgação científica nacional silenciar diante de erros categoriais primários. Ao aceitar tacitamente que a "Lei dos Grandes Números" constitui uma prova de existência biológica, validou-se uma falácia non sequitur perigosa: a confusão entre probabilidade estatística (indução) e necessidade ontológica (dedução).
A ciência não lida com provas definitivas, mas com evidências e corroborações provisórias. A matemática e a lógica, por outro lado, operam no terreno das provas axiomáticas. Ignorar essa distinção não é uma simplificação didática aceitável; é um erro de fundamento que contamina a compreensão pública sobre como o conhecimento humano é construído.
Victorelli, ao flutuar entre definições antagônicas de ciência conforme a conveniência retórica, e Sacani, ao falhar em e perceber e expor este problema, nos lembram de uma lição crucial: autoridade do orador não substitui ou dispensa a autonomia intelectual do ouvinte.
Fica evidente que a lógica deve atuar não como uma rival, mas como a moderadora indispensável da ciência. Sem distinguir o "provável" do "provado", e o "axioma" da "evidência", transformamos a divulgação científica em um teatro de opiniões onde a verdade é a primeira vítima. Que este episódio sirva para elevar a régua: a popularidade da ciência não pode custar a clareza de suas definições.
Após a análise de cada propositura e a exposição de cada fio invisível, resta apenas uma pergunta: Passou ou não passou no Crivo Apodíctico? Não passou. Nem Victorelli, nem Sacani — neste recorte específico — sustentaram proposições estáveis o suficiente para que suas conclusões pudessem ser considerada intelectualmente legítimas.
Transcrições, Prints e Vídeos das falas citadas:

Imagem 1: Publicação de @v.victorelli <https://www.instagram.com/p/DRvKgMfjUHR/>

Imagem 2: Comentário de @v.victorelli feito na publicação da Imagem 1 <https://www.instagram.com/p/DRvKgMfjUHR/>
Transcrição da fala feita por @v.victorelli em sua sequência de stories feita no mesmo contexto da postagem indicada em Imagem 1:
“O cientificismo é uma posição dentro de epistemologia, que em geral está associado (0:10) a uma hipertrofia da ciência em relação às outras vias epistêmicas, então a forma (0:17) mais comum de cientificismo é o entendimento de que somente a ciência (0:22) pode proporcionar conhecimento, e conhecimento a gente pode entender aqui (0:27) como crença verdadeira justificada, então as outras vias epistêmicas, as outras formas de conhecimento (0:33) como a matemática, como a metafísica, filosofia, etc., religião, ou não seriam crenças verdadeiras (0:43) ou se são verdadeiras, são verdadeiras somente por acidente, como quando você chuta e acerta (0:48) e não são verdadeiramente justificadas. No contexto do cientificismo, no geral, quando você fala em ciência (0:55) você está se referindo às ciências naturais, as ciências que usam a observação, o método empírico, a experimentação e assim por diante.”