Prova Científica de Deus?
Como um astrofísico e um pastor criam ilusão da ‘prova de Deus’ com estatística ruim.
Recentemente, deparei-me com uma alegação audaciosa feita por Tassos Lycurgo: a de que ele teria provado cientificamente a existência de Deus usando probabilidades matemáticas, o chamado “Princípio de Borel” e um número final que soa definitivo precisamente porque é gigantesco.
Esse tipo de performance tem um padrão reconhecível: uma conclusão metafísica já decidida — “Deus existe” — que é revestida com vocabulário técnico para produzir no ouvinte uma sensação de inevitabilidade. O público não é convencido por demonstração; é intimidado por escala. A impressão é: “isso é grande demais para eu contestar”. E quando o ouvinte não tem clareza da diferença entre probabilidade, prova matemática e corroboração científica, qualquer discurso com números vira “ciência”.
Confesso que, num primeiro momento, questionei-me se fazia sentido gastar energia auditando isso. Em geral, quem afirma ter “provado Deus cientificamente” não está buscando critério; está buscando vitória retórica. E o resultado costuma ser previsível: de um lado, um discurso religioso tentando sequestrar o prestígio da ciência; do outro, respostas ateias igualmente pobres, reativas, por vezes desonestas, que atacam caricaturas e deixam intacto o problema real — a confusão conceitual.
Mas algo mudou a natureza do problema: a recepção. Ao observar uma quantidade massiva de comentários de pessoas bem-intencionadas aplaudindo e aceitando aquelas falácias como “ciência de ponta”, percebi que o silêncio seria uma omissão. Quando um erro vira produto viral, ele deixa de ser “erro privado” e passa a ser poluição intelectual pública.
Este artigo não nasce, portanto, do desejo de “debater Deus”, nem de disputar torcida religiosa/ateísta. Nasce de um objetivo mais básico: separar prova de retórica, e proteger a integridade da Ciência, da Lógica e da Estatística contra um uso indevido do seu vocabulário — uso esse que transforma leigos em reféns de uma autoridade performática. O que segue é uma auditoria: premissa por premissa, inferência por inferência, sem teatro.
O Que a “Prova” Esconde
Para o leigo, os números gigantescos e os termos técnicos apresentados por Tassos parecem irrefutáveis. Para um olhar familiarizado com rigor apodíctico, contudo, o argumento se desfaz como fumaça. Abaixo, antecipo as conclusões desta análise forense:
• A Falácia de Borel: Tassos distorce uma regra prática de estatística (o Princípio de Borel, usado para negligenciar eventos raros por utilidade) e a transforma, magicamente, em uma “lei de impossibilidade ontológica”. Ele ignora que, pela sua própria lógica distorcida, a existência de qualquer ser humano específico seria considerada “matematicamente impossível”.
• A Numerologia do Astrofísico Hugh Ross: A base do cálculo de probabilidade (uma chance em 10¹³⁸) deriva de uma matemática defeituosa proposta por Hugh Ross. Descobriremos que ele multiplica fatores dependentes (como gravidade e massa) como se fossem eventos isolados — um erro primário análogo a multiplicar o tamanho do pé pelo tamanho do sapato para provar um “milagre”.
• O Erro Categorial: O argumento falha na base ao confundir “Prova Matemática” (dedutiva/axiomática) com “Prova Científica” (indutiva/empírica), ignorando que a ciência não lida com provas absolutas, mas com modelos explicativos.
O Objetivo Desta Análise
O problema a ser resolvido aqui é claro: Tassos Lycurgo provou cientificamente a existência de Deus?
Para responder, não usaremos opiniões teológicas ou ateístas. Aplicaremos um Filtro Apodíctico rigoroso sobre as premissas lógicas, físicas e estatísticas apresentadas. O que segue é a demonstração de como o mau uso da matemática pode fabricar certezas que não resistem a uma simples verificação de consistência.
1. Definição Rigorosa dos Termos
1.1 DeusExistem muitas definições possíveis para a palavra Deus. Eu poderia partir de uma delimitação conceitual dos usos, ou estabelecer de modo arbitrário a definição que mais me conviesse para esta situação. Dado o histórico cristão de Tassos, considero adequado usar a definição cristã:
Ipsum Esse Subsistens (O Próprio Ser Subsistente). Disso decorrem quatro características operativas fundamentais:
- Onisciência
- Onipresença
- Onipotência
- Onibenevolência
1.2 CiênciaÉ o processo sistemático de busca pela verdade sobre a realidade observável, realizado através da proposição de conjecturas (teorias explicativas) que são submetidas a tentativas rigorosas de falseabilidade (testes empíricos).
Você pode ver como analisei as concepções de ciência e cheguei a esta como mais adequada no artigo [[003. Heurística de Seleção de Conceitos]].
1.3 Big Bang (A Teoria do Átomo Primordial)“A hipótese do Átomo Primordial é uma hipótese cosmogônica que retrata o universo atual como o resultado da desintegração radioativa de um átomo.”
3. Proposições: Construção da hipótese de Lycurgo
3.1 A criação do universo é uma evidência da existência do Deus criador cristão.3.2 A Teoria do Big Bang propõe a ideia de que a matéria, o espaço e o tempo vieram a existir a partir do nada.
3.2.1 Dada a veracidade da premissa 3.2 (a matéria veio a existir a partir do nada), então a causa é imaterial, portanto espiritual.3.2.2 Dada a veracidade da premissa 3.2 (o tempo veio a existir a partir do nada), então a causa é não temporal.3.2.3 Dada a veracidade da premissa 3.2 (o espaço veio a existir a partir do nada), então a causa é não espacial, portanto infinita.3.2.4 Espiritual, atemporal e infinito são características de Deus.
3.3 É impossível existir um universo com vida da forma em que a vida existe (então só pode ser obra divina, o que pressupõe a existência de Deus).3.3.1 Existem 122 características que são milimetricamente sintonizadas para que a vida na Terra seja possível.3.3.2 A chance de alinhar 122 características por acaso é de uma chance em 10¹³⁸.3.3.3 O princípio (matemático) de Borel diz que, se há uma chance em 10⁵⁰ de um evento ocorrer, então é um evento (cientificamente) impossível.
4. Filtro Apodíctico
4.1 Análise da proposição 3.1É uma falácia de petição de princípio. Quando Tassos diz “a criação do universo…”, ele automaticamente pressupõe que o universo tenha sido criado. Basicamente, ele parece estar dizendo: “A criação do universo é uma evidência de que o universo foi criado (por uma divindade)” ou, se você preferir, “a criação do universo é uma evidência da criação do universo”. Na verdade, a criação do universo (mesmo se aceitarmos que o universo foi criado) não pode ser uma evidência da criação, pois ela seria a própria criação.
Tentando melhorar a proposição de Tassos, usando de grande caridade hermenêutica, uma versão melhor poderia ser: “A existência do universo é uma evidência de sua criação”. Mesmo assim, ainda seria uma falácia non sequitur: a existência não necessariamente indica criação. Existem as possibilidades de o universo sempre ter existido ou ter surgido espontaneamente, por exemplo. Assim, a proposição está refutada.
4.2 Análise da proposição 3.2A própria definição proposta por Lemaître contraria a proposição de Tassos: “A hipótese do Átomo Primordial é uma hipótese cosmogônica que retrata o universo atual como o resultado da desintegração radioativa de um átomo.” Assim, se a hipótese do “Big Bang” propõe-se a retratar o universo atual/conhecido como resultado da desintegração de um átomo, então a hipótese prevê que havia um átomo. Isto é: havia um átomo — e um átomo não é “nada”. É um átomo.
Neste ponto, é comum que as pessoas se perguntem: “E o que havia antes deste átomo?” Honestamente, eu não tenho ideia — e Lemaître também nunca apresentou qualquer proposta explicativa formal para tal questionamento. Ele apenas remontou as evidências até onde era possível e extrapolou suas conclusões até o que chamou de “átomo primordial”. Um trecho da carta de Lemaître para a revista Nature pode deixar estes pontos ainda mais claros:
“Se o mundo começou com um quantum único, as noções de espaço e tempo falhariam totalmente em ter qualquer significado no início; elas só começariam a ter um significado sensível quando o quantum original tivesse sido dividido em um número suficiente de quanta.”
Em outras palavras: quando alguém se pergunta “o que havia antes”, precisa entender que a própria definição da palavra “antes” pode não caber ali. É uma palavra útil para interpretar alguns elementos da nossa realidade senciente, mas pode não ser explicativa daquele cenário. As leis conhecidas da física podem não caber ali. Assim, o item 3.2 constitui uma afirmação inverídica.
4.2.1 Análise da proposição 3.2.1É uma inferência dependente da veracidade do item 3.2. Com a refutação do item 3.2, este também perde a validade.
Mesmo assim, considero válido refletir sobre a ideia proposta por Tassos de que “imaterial é, portanto, espiritual”. Ao analisar as concepções de “Espírito” e “Espiritualidade”, cheguei a um conceito mais útil e consistente com a física moderna, que não caracteriza espiritualidade pela imaterialidade, mas pela governança epistêmica das próprias decisões, de modo a promover o bem. Entenda mais em [[Espiritualidade]].
4.2.2 Análise da proposição 3.2.2É uma inferência dependente da veracidade do item 3.2. Com a refutação do item 3.2, este também perde a validade. Assim, não vejo razão para comentários complementares.
4.2.3 Análise da proposição 3.2.3É uma inferência dependente da veracidade do item 3.2. Com a refutação do item 3.2, este também perde a validade.
Apesar disso, considero válido refletir sobre o trecho “a causa é não espacial, portanto infinita”. A afirmação, por si só, constitui uma falácia non sequitur e um erro categorial. Algo não espacial é sem extensão (ausência de extensão). Algo infinito possui extensão sem fim. Se algo é “não colorido” (invisível ou transparente), isso não significa que ele possui “todas as cores” ou “cor infinita”. Significa apenas que a categoria “cor” não se aplica a ele.
4.3 Análise da proposição 3.3Aqui, assumirei temporariamente que a primeira sentença seja verdadeira (“a vida como conhecemos é impossível [dadas as leis naturais conhecidas]”). A inferência depende de qual é a definição utilizada de divindade. Neste caso, estamos usando a definição cristã de Tassos; logo, a proposição 3.3 é uma falsa dicotomia. Logicamente, se a vida como conhecemos fosse impossível (de acordo com as leis naturais conhecidas pela humanidade), poderia ser criação de alguma forma de vida alienígena extremamente avançada, porém finita e mortal. Uma força ordenadora não benevolente também poderia ser a criadora. Ainda em consistência com esta premissa, o universo conhecido, com a vida conhecida, poderia até ser nada além de um código rodando no computador de uma civilização tecnologicamente avançada.
Deixo claro que este parágrafo constitui uma análise de consistência lógica das proposições de Tassos, não a afirmação de que considero razoável qualquer uma das hipóteses alternativas citadas.
4.4 Análise da proposição 3.3.1Esta proposição também constitui uma premissa sustentadora da primeira sentença do item 3.3.
Inicialmente, Hugh Ross, o desenvolvedor desta hipótese, já propôs diversos números (entre eles, o 122). Ele identificou 122 características, como gravidade da superfície, velocidade de escape etc. Mas como exatamente ele identificou cada parâmetro? Olhou para o planeta Terra e mapeou características que encontrou na Terra.
Talvez o problema mais grave seja que o fato de a vida ter se desenvolvido precisamente de um certo modo na Terra não é garantia de que este seja o único modo pelo qual a vida poderia se desenvolver — necessariamente com este exato ajuste fino.
O fato de que Ronaldinho Gaúcho foi um jogador de nível absurdo não garante que o único modo de qualquer jogador atingir aquele nível seja com precisamente aquele conjunto de características. Inclusive, Pelé e Ronaldo Nazário alcançaram níveis até maiores mantendo características bastante distintas. Apesar disso, evidentemente, todos eles mantinham certos fatores latentes fundamentais em comum: talvez seja necessário um certo piso nos níveis de coordenação motora, um certo nível mínimo de força física etc.
É evidente que estou especulando possíveis fatores latentes necessários para jogadores de nível histórico, mas necessariamente haveria alguns fatores necessários comuns. Assim, temos fatores únicos em cada jogador (que podem até ter contribuído para a evolução específica daquele jogador específico), mas que não são pré-requisito para qualquer jogador de classe histórica; e temos também fatores latentes fundamentais, sem os quais nenhum jogador alcançaria classe histórica (e alguns sem os quais ninguém conseguiria sequer jogar futebol). Ross mistura as duas categorias de características, como se todas fossem pré-requisitos para a existência de vida e como se a única possibilidade de vida fosse idêntica ao que há na Terra, com padrão evolutivo muito semelhante.
Provavelmente, uma tarefa mais útil seria tentar identificar os “fatores latentes”. Não seriam exatamente fatores latentes, neste caso, mas, até onde eu sei, Martin Rees tentou fazer um trabalho nesta direção, identificando as constantes fundamentais adimensionais. Conheço pouquíssimo do trabalho dele, mas sei que ele chegou ao número de seis constantes e acreditava na possibilidade de mais tarde descobrirmos que todas se traduziriam em apenas uma constante fundamental adimensional. Ele testou a sensibilidade e concluiu que um ajuste fino extremamente delicado seria necessário. Honestamente, este me parece um caminho muito mais promissor.
Ainda assim, na prática, Ross — uma vez tendo identificado as “122” características, supondo que as 122 sejam as verdadeiras (nenhuma a mais ou a menos) — multiplicou as probabilidades de todas elas para chegar ao número 10¹³⁸ (como probabilidade final).
A próxima pergunta que você deveria fazer é: “Como Ross calculou as probabilidades individuais de cada característica ocorrer?”
Mas, antes de responder, vou conceder, por hipótese, que todas as probabilidades dos eventos individuais estejam corretas. Ainda assim, para calcular a probabilidade conjunta desta série de eventos, ele supôs que eram fatores independentes entre si. Agora, lembre-se de dois exemplos contidos na lista de Ross: gravidade da superfície e velocidade de escape. Se você já cursou o Ensino Médio e tem dois neurônios, suponho que já tenha percebido que não são fatores independentes. Tanto a gravidade de superfície quanto a velocidade de escape dependem diretamente da massa do planeta, do raio do planeta e da constante de gravitação universal. Na prática, Ross infla artificialmente a improbabilidade ao multiplicar fatores que, na realidade, possuem correlação alta. Se você tem a massa e o raio corretos para a gravidade, você necessariamente já tem a velocidade de escape correta. Não há “milagre” adicional; há apenas física básica.
Agora respondo à pergunta: “Como Ross calculou as probabilidades individuais de cada característica ocorrer?”
Ele estimou de forma essencialmente arbitrária. Na versão da lista disponível no site oficial da fundação do astrofísico, é apresentada uma lista já com 154 características/parâmetros; porém, logo após, há um resumo falando em 322. Uma inconsistência flagrante. Dentre os 154 parâmetros listados, 78 receberam o valor probabilístico 0,1 (10%), 42 receberam o valor de 0,01 (1%) e 9 receberam o valor de 0,2 (20%). Números tão redondos que caracterizam evidências bastante robustas de terem sido tirados do chapéu de Ross. Isto é: os números que estão na base do cálculo são altamente questionáveis — ele mesmo chama de “estimativas conservadoras”.
Assim, nem as 122 características são razoáveis, nem o cálculo utilizado faz sentido, nem os valores dos parâmetros são justificados.
Existem algumas tentativas mais robustas de quantificar parâmetros fundamentais possibilitadores da ocorrência de vida. Por exemplo: os cálculos de Martin Rees, utilizando constantes fundamentais adimensionais que foram validadas e utilizadas por Stephen Hawking na Teoria M, propondo a necessidade de multiversos. Não sou físico e não estou apto (nem interessado) em avaliar a solidez da solução proposta por Rees, mas, dado o pouco contato que tive com esta hipótese, ela me parece conceitualmente robusta.
4.5 Análise da proposição 3.3.2Como apontado no item 4.4, os parâmetros de entrada são inválidos. Assim, o resultado só pode ser nulo.
4.6 Análise da proposição 3.3.3Tassos dá a entender que o Princípio de Borel é uma prova científica da impossibilidade de ocorrência de qualquer evento com probabilidade inferior a uma em 10⁵⁰. Primeiramente, uma prova matemática não constitui uma prova científica (inclusive, não existe “prova científica” no sentido dedutivo). Você pode entender melhor esta distinção entre Prova Matemática e Prova Cientifíca no artigo "Sacani contra um lógico que o chamou de cientificista", em que explico isto com razoável detalhamento.
Além disso, o Princípio de Borel propõe que, por utilidade, é imprescindível que, quando um evento em escala terrestre tiver probabilidade inferior à citada, é mais útil supor que houve uma causa estranha ao acaso e investigar esta causa — ao invés de aceitar que foi obra do acaso e cessar investigações. Ele não “proíbe” estes eventos de ocorrerem. Inclusive, matematicamente, é possível — embora extremamente improvável — que um evento assim tenha ocorrido.
A Analogia da Senha do Banco
Imagine que sua senha de banco tem 100 dígitos. A chance de um ladrão acertar no primeiro chute é de 1 em 10¹⁰⁰. É possível que ele digite aleatoriamente e acerte de primeira? Sim. Se o dinheiro sumir da sua conta, e o banco disser: “Olha, o ladrão teve muita sorte e acertou de primeira; foi puro acaso”, você aceitaria? Não. Você diria: “A chance é tão pequena que eu recuso a explicação do acaso. Deve ter havido fraude, roubo de dados ou falha no sistema (uma causa determinística).”
A título de utilidade, é mais eficaz assumir eventos desta magnitude de raridade como impossíveis, mesmo sendo virtualmente possíveis. Isto é o que propõe o chamado Princípio de Borel. A preocupação do propositor era sobre a utilidade de números infinitesimalmente pequenos para a vida efetiva. É um princípio de negligenciabilidade.
Assim, nem o princípio citado “proíbe” os eventos raros mencionados de ocorrerem, nem qualquer princípio matemático tem o valor de prova científica. Os eventos raros podem ter ocorrido, mas é mais útil investigar uma causa subjacente — como alguma lei da física ainda desconhecida, ou um criador divino, ou um criador tecnologicamente avançado, ou multiversos que estabeleceriam probabilidades de acordo com a distribuição de eventos entre universos.
Um resumo razoável aqui é: eventos desta magnitude de raridade podem ocorrer; Borel considera que, para efeitos práticos, é geralmente mais válido negligenciá-los. Além disso, Borel propôs isso como um parâmetro de negligenciabilidade em escala terrestre. Os fatores possibilitadores do surgimento da vida em planetas são certamente de escala cósmica. O próprio Borel propôs um limite de 1 em 10¹⁰⁰ para escala cósmica — o que significa que Ross e Tassos erraram até na escolha da métrica. Independentemente disso, os fundamentos se mantêm, e a possibilidade de multiversos alteraria a negligenciabilidade cósmica conforme a quantidade de multiversos.
Conclusão: A Implosão da “Prova”
A tentativa de Tassos Lycurgo de apresentar uma prova científica da existência de Deus não resulta em demonstração, mas em efeito de demonstração — um artefato retórico construído para soar inevitável. E isso importa porque, quando o público confunde inevitabilidade retórica com inevitabilidade lógica, o espaço social deixa de premiar método e passa a premiar encenação.
A auditoria mostra que o argumento falha antes mesmo de começar, porque opera em três confusões estruturais:
- Um salto metafísico disfarçado de dedução Tassos trata “o universo existe” como se isso implicasse “logo, foi criado”, e trata “foi criado” como se isso implicasse “logo, foi criado pelo Deus cristão”. Mas nada disso é dedução; é empilhamento de conclusões. Mesmo concedendo ajustes raros, a inferência “portanto, o Deus cristão existe” não surge por necessidade — ela surge por preferência. A conclusão não é extraída; é transportada.
- Negligenciabilidade virou impossibilidade ontológica O “Princípio de Borel” (tal como é usado em discussões populares) funciona como critério prático: quando algo é raro demais, você tende a investigar causa não-aleatória porque isso é útil para a vida real. Só que utilidade prática não é decreto metafísico. Transformar “é racional não apostar nisso” em “isso não pode acontecer” é um erro categorial central — e é justamente esse erro que dá ao discurso a pose de “prova”. Quando se remove o erro, a “prova” perde o chão.
- Numerologia probabilística no lugar de modelo O cálculo de Hugh Ross (o 10¹³⁸) não tem o status psicológico que tem por ser rigoroso, mas por ser grande. Só que grandeza não corrige método. Multiplicar fatores dependentes como se fossem independentes não “refina o cálculo”; infla artificialmente a improbabilidade. E quando a base é inflada, o número final não é uma medida do mundo — é um número com aparência de mundo.
O resultado é um constrangimento epistemológico: não houve prova científica, porque prova científica não existe nesse sentido; ciência trabalha com modelos, evidências, corroboração e refutabilidade. E não houve prova matemática do que foi prometido, porque o que foi oferecido não é teorema, é interpretação metafísica apoiada em premissas instáveis e em um uso indevido de probabilidades.
O que esse episódio ensina não é sobre Deus. É sobre rigor e honestidade intelectual: quando as pessoas perdem a capacidade de distinguir probabilidade de necessidade, e jargão de demonstração, qualquer conclusão pode vestir jaleco e ser aplaudida como “ciência”. A lucidez exige um preço: recusar a sedução de certezas fabricadas.
Após a auditoria das proposições, resta apenas a pergunta que decide o texto inteiro: passou ou não passou no Crivo Apodíctico?Não passou. O argumento falha por erro categorial (prova matemática ≠ prova científica), por abuso do Princípio de Borel (negligenciabilidade ≠ impossibilidade) e por numerologia probabilística (dependência tratada como independência).
Como menção honrosa, a única prova lógica da existência de deus, que eu conheço e é fortemente aderente ao paradigma científico contemporâneo, foi proposta por Hindemburg Melão. Para você que tem interesse em conhecer, clique no link: https://www.youtube.com/watch?v=xqRlrvSGCss
Segue abaixo vídeo publicado por Tassos Lycurgo, contendo as proposições citadas: